Já fiz aqui referência a um documentário em que estou a trabalhar, sobre um poeta aqui da terra, Políbio Gomes dos Santos. Hoje tive de forçosamente ficar até mais tarde, para adiantar 2 outros trabalhos, mas fui tb adiantando as pontas neste. Há já algum tempo que não sentia um entusiasmo tão assoberbado como o que sinto por estes dias, entusiasmo em relação ao trabalho e somente em relação ao trabalho. Apetece-me ficar aqui a noite toda a trabalhar, a cortar, a colar, a escrever. A fazer o mais belo documentário que eu conseguir. Até ficava, mas é melhor ir dormir... Mas só um pouco porque às 6h00 já estarei a acordar novamente.
Até lá fica um dos poemas, apenas um bocadinho da sombra de alguém que já se foi e que eu descobri. Acho que é essa sombra, de um conterrâneo, que me inspira neste entusiasmo :)
Epitáfio - Março de 1939
Menino, bem menino, fiz o meu balão.
Papel de seda às cores...
- Tantas eram!
Ai, nunca mais as vi, nos olhos se perderam.
Quando a tarde morria o meu balão subiu
E tão direito ia, tão veloz correu
Que eu disse: "Vai tombar a Lua
E talvez queime o céu".
Anoiteceu.
E no horizonte o meu balão era uma rosa
Vermelha, não minha, aflitiva,
Murchando,
Poisando na água pantanosa
De além.
Ninguém o viu.
Ninguém colheu a angústia dum balão ardendo,
Somente a água verde rebrilhou acesa,
Clamorosa e podre,
Como nos incêndios de Veneza.
E rãs, acreditando o mal mortal e seu,
Foram fugindo, pela noite fria,
Do balão que ardeu.
Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!