quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Lituânia e Holanda



Há certos detalhes do meu trabalho de que me orgulho particularmente. Fica aqui um deles. Na imagem (da esquerda para a direita) está um lituano e dois holandeses. Vi-os no café onde, de manhã, costumo ir breves minutos. São peregrinos, dos muitos que por aqui passam. Sempre achei um desperdício vê-los apenas caminhar e não os registar, não lhes falar. Pequenas histórias ambulantes que passam e que não devem ser desperdiçadas! Voltei para o meu local de trabalho e espreitei da janela. Demoraram ainda um bocado. Eu estava a ganhar coragem para ir ter com eles, assim que os visse voltar a pôr as mochilas nas costas e voltarem ao caminho. Assim foi. Mas perdi a coragem. Porque estas coisas têm que ser como a maioria: no impulso. Sem pensar muito. Nos prós nem nos contras. Simplesmente fazer, porque acreditamos no que "está em jogo" :) Então a minha sorte foi que a senhora vinha com peso a mais na mochila e o grupo fez uma paragem nos Correios, que também vislumbro aqui de uma das janelas do meu local de trabalho. Foi então que, pegando no referido impulso, pego na máquina e vou rua abaixo, em passo acelerado. Meti conversa com o lituano, que ficou sentado na escadita à entrada. E mal o casal saiu, desci um bocadinho com eles, até este nosso monumento - o Pelourinho. Já lhes tinha pedido informação dos nomes, idades e países de origem, para partilhar a fotó no FB. E também os e-mails (enviei já há minutos a fotó para eles). E é assim que, a pouco e pouco, vou construindo mais um álbum bonito e ansianense: Peregrinos, "De passagem por Ansião, a pé ou de bicicleta, de Portugal e do Mundo!" :)

Deixo ainda um link de um assunto mais sério. No fundo, uma mensagem para ouvir com MUITA atenção, aqui :(

terça-feira, 7 de outubro de 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Inteira ou em pedaços?


Texto sacado daqui.

A natureza sabe das coisas. Cada uma das estações carrega em si uma compreensão infinita das fases da própria vida, que se espelha também nos estágios da nossa existência. Nascer, crescer, amadurecer e morrer. Se quisermos pinçar metáforas no leque das comparações, poderemos sugerir verbos afinados. Brotar, florescer, frutificar e fenecer. Nem sempre, porém, compreendemos os sussurros contidos nestes ensinamentos cercados de verde, mutações frequentes e da eterna presença da esperança.
Nem sempre entendemos a premência e até mesmo urgência dos cortes que acontecem no decorrer da nossa história pessoal, antecipando, por meio de aparentes perdas, transformações plenas de sentido.
Cortes imprevistos, abruptos, que nos ceifam a alegria e os sonhos pela raiz. Amputações de projetos, a despeito das nossas vontades. Doenças repentinas e implacáveis. Extirpações de relacionamentos que sugeriam trocas, aparentemente férteis. Pretensos amigos, sob a pele de víboras. Outros, cujo caráter se revelou tortuoso e indefinido como o comportamento dos sagazes camaleões.
Cecília Meireles, autora da frase-título desta crônica, poeta de encharcada sensibilidade e senso de observação cristalino, enxergava a si e ao mundo com os olhos do coração. Sentia, apreendia, absorvia os discursos de todo o gênero que a rodeavam, visuais, olfativos, sensoriais, muito além dos sons das corriqueiras falas humanas.
Talvez bem cedo a poeta tivesse compreendido a necessidade de aceitar cortes essenciais na intimidade do seu cotidiano. Quem sabe observava plantas e flores sendo ceifadas, passando por enxertos e renascendo transformadas.
A propósito, como é para você conseguir voltar sempre inteira após se deparar com perdas, às vezes enormes, que aterrissam em sua vida a seco e sem licença nem aviso prévio. Tudo já começa cedo. A perda dos dentinhos, na infância, do seio da mãe, a perda do berço e do engatinhar pelo crescimento iminente.
A perda gradual da inocência. Os limites frustrantes, preenchidos de negativas por seus pais, nos primeiros anos de sua ainda verde história. Não pode. Tira a mão daí. Não mexe nisso. Para de tirar meleca na frente de visitas. Para de chorar e escova os dentes agora. Sai do computador. Hora de dormir e não tem conversa.
São cortes, muitos cortes, reproduzidos a torto e a direito e trazendo susto e asfixia. Alguém precisa amputar uma perna gangrenada para não morrer. Um tumor para sobreviver. Um casamento para prosseguir sonhando. Cortar o choro e engolir a mágoa diante do chefe descerebrado para não perder o emprego.
Adjetivos, advérbios, interjeições, discursos longos e vazios, falas demagógicas como a dos políticos. O palavrão fora de hora. O xingamento mal encaixado, o revide com um soco não adequado à ocasião. A empolgação excessiva e descabida.
Até que ponto a gente é capaz de flagrar nossos exageros. Olhar para dentro de nós, onde moram verdades escancaradas e certezas sem escamoteamentos. Detectar, nas nossas performances diárias, gafes, atitudes desproporcionadas, necessidades irrefreáveis de chamar atenção.
Conter os ímpetos e cortar a demanda aparentemente incontrolável de surrupiar brindes nos hotéis, restaurantes, despejar na bolsa bandejas de salgadinhos servidos na festa de fim de ano na empresa. Que delícia fugir às regras e jogar no lixo todas as proibições da forjada e fajuta ética, hein.
Não mandar á merda a sogra, as cunhadas e todo o pacote de agregados na família do marido para não o perder. Recomenda-se prudência em alguns casos. Mas quanto esforço nos custa refrear estes impulsos, antes que eles cheguem enfurecidos à garganta. Difícil.
Apresenta-se neste momento a compulsão, sempre de mãos dadas com a ansiedade. Beber até cair. Transar com todos sem distinção, incluindo o bêbado da esquina. Comer sem parar o bolo de chocolate previsto para durar três dias na geladeira. Falar demais sem escutar os interlocutores. Quem nunca? Rir e chorar histericamente, enquanto sufoca sorrateiramente mágoas cinzentas, profundas e danosas. Cortar gente vampira, conselhos de meia tigela, pessoas invejosas, interesseiras, loucas para puxar o seu tapete e aplaudir de camarote quando você cair de bunda na amargura.
Aprender a lidar com sentimentos áridos como paciência, resignação, tolerância, abnegação, compaixão. Buscar força e determinação, aonde quer que elas estejam talvez em regiões de emoções sombrias. Aventurar-se a qualquer preço para se manter de pé em meio a desgraças. As hecatombes e intempéries do mundo somadas às suas.
Alguns hábitos também desfilam livremente em sua vida. Preguiça, adiamentos, mentiras, fofocas, maledicências, faltar a deveres e compromissos. Já venceu alguma dessas batalhas ou acha que está tudo certo e deve continuar desse jeito?
Situações graves: como cortar das depressões e tristezas o desejo de desistir da vida? Colocar para fora o que angustia tanto, antes de meter uma bala na cabeça. Porque dor não assumida além de seguir, eventualmente, por uma trilha suicida, se continuar ignorada pode virar câncer. Um pesadelo insidioso que depois de instalado não para de se alastrar.
Entretanto, no meio de tantos cortes, a natureza se reaproxima da gente, agora mais de mansinho, e alerta para algumas regenerações possíveis, como as observadas em certos milagres. Nossos neurônios, por exemplo, se multiplicam sem parar mesmo na idade adulta. Nos mamíferos, o fígado é o órgão com maior capacidade de reconstrução. Quando cortado ao meio, as células das duas metades começam logo a se proliferar.
Bichinhos como lagartixa e minhoca se reconstituem naturalmente. No fundo dos mares flagramos belos e fascinantes segredos. As esponjas de coloridas e exóticas formas, demostram incrível capacidade de regeneração. Algo tão impressionante que, mesmo se trituradas num liquidificador, conseguem renascer. As estrelas do mar e ouriços desafiam perdas semelhantes e também se reconstituem.
Mas é hora de retornar às histórias nossas de cada dia. Então, dá para cortar fora os ciúmes e as desconfianças absurdas que minam raras e preciosas relações. A arrogância e o orgulho desmedidos. Fulminar a soberba com legítimos e corajosos pedidos de desculpas. Trocar o ódio e os rancores, gradualmente que seja pelo perdão. Enterrar o desamor, a baixa estima, culpas irracionais a favor do florescimento da felicidade.
Enquanto você reflete sobre as questões acima, deixamos aqui uma reconfortante certeza. Todos passarão ainda pelo aprendizado de novas primaveras. Recomeços e finais de ciclos para abraçar estações inteiras de delicadas e merecidas plenitudes. Convém aproveitar essa notícia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Fotografia



Apesar de não ter assim tanta experiência/ prática, gostava bastante que algum dia a fotografia pudesse ser uma fonte de rendimentos. E gostava também de ter tempo para explorar a minha máquina, que uso tão poucas vezes.

Há uns tempos, fiz uma pequena colaboração gratuita no ramo imobiliário lol Ficaram TÃO giras!

Amanhã, em princípio, irei faze uma outra experiência. Desta vez com uma jovem amiga que está grávida.

Junta-se isto à primeira experiência gastronómica, que também postei aqui há largos meses.

Vamos ver como corre amanhã. Quem venham mais experiências destas :)

P. S.: Em breve, actualizarei mais fotós da viagem (falta Roterdão e Copenhaga) e falarei tb do breve cursod e culinária macrobiótica que iniciei ontem!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Amesterdão































Finalmente consegui postar a primeira parte de fotós da viagem de Setembro. No FB ficaram algumas, mais genéricas. Deixo aqui então outras, um bocadinhos mais específicas :)
Hoje ficam recuerdos de Amesterdão e de um passeio pelos arredores, nos quais fui com um grupo avulso visitar uma aldeia de moinhos típicos e uma outra piscatória. Comecei por Amesterdão (Deixo Roterdão e Copenhaga para outra fugida bloguística) porque foi o sítio que menos gostei, sem desmericimento do local. Mas, comparando com os outros sítios onde estive, foi de facto o que gostei menos. De qualquer forma estas duas aldeias que visitámos valeram para compensar lol
De resto, uma das coisas de que mais gosto, manteve-se no topo: passear pelas ruas, sem destino propriamente dito, olhar par as pessoas, para as ruas, para as janelas, etc. Inspirações mais que muitas.

Em breve, voltarei à reportagem fotográfica dos outros sítios.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Miguel Esteves Cardoso


Que "coisa" loucamente bonita.

"Quando eu era pequenino e vi um cartaz do filme The Seven Year Itch, de Billy Wilder e de 1955, perguntei à minha mãe o que era. Ela respondeu: "Ao fim de sete anos a novidade do casamento começa a passar".
Ao fim de 14 anos, cada vez que eu olho para a minha mulher, cada dia que acordo ao lado dela, o que mais me comove e impressiona é precisamente a novidade de vê-la, poder amá-la, ter a sorte de ser amado por ela.
Cada coisa que fazemos é ao mesmo tempo antiquíssima – como uma cerimónia que construímos juntos só para nós os dois – e novíssima, pelo desejo e pelo entusiasmo de lá estar, naquele lugar que ela abriu para mim e ela no lugar que só é dela, que sou eu.
O casamento é só uma palavra: é verdade. Mas também pode ser a vontade de casarmos e ficarmos casados, todos os dias, com a mesma pessoa que amamos.
Cada vez nos casamos mais. As diferenças dela vão cabendo cada vez melhor nas minhas. Cada vez somos, a Maria João e eu, mais livres de sermos como somos, cada um de nós, e de sermos como somos, nós os dois.
Ela torna-se mais ela; eu torno-me mais eu, ela e eu com menos medo que o outro fuja por causa disso. Mas com medo à mesma. E ganância de viver e curiosidade em saber como é que o décimo quinto ano vai ser melhor do que este.
Mas vai ser."


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Melting pot


Hoje acabei por não ir almoçar a casa. Fui buscar comida aqui ao lado e piqueniquei com uma amiga, com o solinho quente e agradável que está hoje :) Na espera para o repasto, folheei algumas coisas na Biblio. Uma delas foi uma recente entrevista da Catarina Wallenstein. Muito boa de ler na íntegra, mas em particular estes 2 pontos, que me dizem muito. Pela experiência traumática da sua não existência...

Ainda no almoço, que foi tomado à beira de um lar de idosos, num recanto verde algo escondido, mas muito mimoso, um dos vários velhotes que de vez em quando saem para vir à rua estava sentado na mesa ao lado. Sozinho, poisou o seu chapéu de aba no banco e a sua bengala na mesa. Estava de costas, mas deu para perceber que tinha algo nas mãos. No final do almoço, fui pôr algumas coisas ao ecoponto, que estava distante algumas dúzias de passos, de modo que no caminho para cá, vi o senhor de frente. O que é que tinha na mão? Era um terço :) Estava a rezar. Comovi-me com "aquilo", como me comovo agora ao recordar, escrevendo. A velhice comove-me. E preocupa-me. A dos outros e a minha.

Quero muito, mas mesmo muito, muito, muito ir ver este filme. ["Não sei porque é que continuas a insistir. Porque é que me tratas bem. Porquê eu?/ Sabes porquê? Porque entre todos os terraços de Lisboa e do Mundo foi o meu que tu escolheste"]

Antes de ir de férias fui ver este apartamento. E um outro, mais pequeno, no mesmo prédio, mas no 1º andar. Este fica no r/c. Na sua globalidade, agradou-me mais este, achei mais mimoso. Mas pelo espaço, gostei mais deste do link, contudo está mais mal estimado. O outro nunca foi habitado. Esta coisa de arrendar sempre me atrofiou um pouco. Precisava de alguém mais velho para conversar sobre este assunto. Alguém que não são definitivamente os meus pais. Quer dizer, a amiga que me acompanhou no almoço de hoje sabe deste assunto e falamos sobre isso. Mas queria falar mais, sei lá.
Atrofia-me um pouco este recanto não ter varandas. Quer dizer, tem duas, mas daquelas tipo janelas, que na verdade não tem espaço físico fora de paredes. Na prática só tem fogão, requer mesmo investimentos. Mas tem muitas coisas boas: garagem, um sótão amplo que "facilmente" transformaria no atelier multifacetado com que tanto sonho (!!!!). Está também perto (a pé e/ ou de bicicleta de todos os sítios que fazem parte do meu quotidiano: biblio, trabalho, bombeiros, gimno, banco, correios, parque, mercado, mini e supermercados, papelaria, padaria, etc, etc, etc) E tem a melhor coisa do mundo: espaço vazio para habitar com paz e amor, embora só meu :) Falando "curto e grosso a "cena" resume-me assim:
- Se sair de casa, poderei contribuir para o desmoronamento da pseudo-família que resiste;
- É uma realidade muito estranha imaginar depois se "posso" lá ir almoçar quando quiser, deixar de chamar a minha casa, etc
- Falta-me coragem para tomar este passo de vez
- O meu sonho, mesmo sonho era ter uma casa mesmo, podia ser pequena, podia ser velha, mas que desse para habitar e que tivesse terra, jardim, espaço
Continuo meio perdida, mas com vontade de fazer algo, essencialmente por mim, porque "é só a mim que me tenho"
Se calhar está mesmo na hora de fazer mesmo com que a realidade que imagino aconteça mesmo. Ou parte dela.

P. S.: Ontem cheguei a carregar algumas fotós da viagem, mas metade deram erro, de modo que desisti. Tentarei de novo brevemente.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

António Gedeão


"Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo."