quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

janelas


HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. 
HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 
MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
in “Escolha seu sonho”  de Cecília Meireles



P. S.: Um acrescento a este post: How to be alone.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

(Des)pensa



 
Dizem as estatísticas que, pela "norma", as 24 horas do nosso dia são tripartidas: 8 para trabalhar, mais 8 para dormir e as restantes 8 para fazer outra coisa qualquer. E bem sabemos que uma parte desta terceira cede uma boa parte para a primeira. E já que passamos mais de um terço da vida a trabalhar, que o possamos fazer confortável e alegremente, dentro de todas as condicionantes que o stress, o nosso estado de humor, os desafios de cada tarefa, e outras alíneas, trazem no dia-a-dia. No meu caso pessoal, julgo que não há um só dia em que eu não pense que sou muito sortuda. Uma sorte que vem, claro, do esforço e dedicação de que tento não me desviar. Vem esta introdução a propósito do "pousa pés" que arranjei há alguns dias (para substituir uma velhinha e irritante caixa de cartão que quase jazia aqui debaixo da secretária) e a renovada dispensa. Uma arrumação que já há bastante tempo queria ter arranjado. Foi hoje então. Algumas coisas fora da validade para o lixo, sacos e saquetas para a reciclagem e, enfim, bens matinais de primeira necessidade aptos e com uma aparência que já não envergonha nenhuma visita inesperada que por aqui apareça.
 
Aproveito este post para deixar mais dois textos interessantes que li há minutos em voz alta e com entoação, para dar ânimo para a tarde. Isso e o pão com chouriço que ali está à espera do mínimo sinal de fome :)
 
Excerto 1, na íntegra aqui:
 
"O foco agora sou eu. Um egoísmo que aprendemos também com a chegada da nova idade. Passar a barreira da idade de Cristo traz paz, serenidade, auto-conhecimento e foco."
 
Excerto 2, na íntegra aqui:
 
"não serão os amigos uns estranhos com quem descobrimos ser melhor gente? Não são os familiares capazes de nos causar surpresas maiores que aqueles com quem nunca nos cruzámos, causando explosões de amor ou amarguras piores que o fel?"
 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Dean Martin - Sway (1954)





"A menina dança?" Talvez, um dia...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Joquim

 
Pequenos prazeres. São os melhores, não é verdade?
 
Um deles é Vítor Ramil. Uma descoberta brasileira relativamente recente (o cantor já é rodado, eu é que só descobri "agora"). Belas letras, som mansinho. Gosto. Muito.
 
Outra é a piscina. Tenho aulas de hidroginástica às segundas e quintas à noite, para me distrair e desenferrujar, em especial os joelhos. Por acaso, faltei nas duas últimas semanas, mas quero retomar já amanhã. Aparte essas aulas, quando posso, ADORO passar lá ao sábado. Durante a semana há muitas aulas, muita confusão. Mas ao sábado, se entrar a rondar as 17h00, só está a haver umas aulas na piscina mais pequena e é muito raro estar mais alguém na grande. É inexplicável o prazer que tenho em lá ir neste caso, em particular. Sábado, volta depressa, sim?!
 
(a imagem é de arquivo e fui eu que a recolhi, em trabalho. Para ilustrar o local!)
 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Alguém. Ninguém.


Hoje voltou a precisar de alguém. Não propriamente para falar, fazia-lhe falta era chorar. Lavar-se por dentro. Ter ali alguém que a sentisse frágil, despida do mundo. Fez duas tentativas para algum momento de distração. Uma ouvinte estava relativamente longe e outra não atendeu a chamada. E assim seguiu de carro, várias dezenas de quilómetros afora. Sem destino. Sem música. Só a ouvir o som do motor. E o lamento da alma. Chegou a passar quatro vezes num local e três vezes noutro. Pormenores. Desde que o caminho de casa ainda estivesse longe. Esse era o objectivo. Olhou para o interior de alguns cafés desertos, quase rezando para vislumbrar alguém. Ninguém. O cansaço começou a fazer-se sentir. Foi o sinal de que sim, tinha de voltar para casa. Uns minutos mais dentro do carro já parado. E ainda mais umas trocas de mimos felinos e caninos, antes de subir os degraus interiores. Também um resto de trabalho antes de descansar. E algum conforto doce numas sobras de infantis gomas, que resistiram alguns dias dentro do saco. Foi esse o jantar.

Há algum momento de paz dentro destas quatro paredes? Há. Quando todos dormem.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

...


António Lobo Antunes. Ainda não consegui ler um livro dele, inteiro. Nenhum me conseguiu prender, até agora. Mas devoro e comovo-me com quase todas as crónicas que escreve na "Visão". Assim como devorei recentes entrevistas escritas que deu. Estou agora a ouvir uma das raras entrevistas televisivas que dá. Pode ser vista e ouvida aqui. Vou no minuto 7 e picos (tem poucos mais de 40), mas já ouvi tantas coisas que me são familiares: "o afeto vinha dos avós", "não se falava de coisas íntimas", "não havia manifestações de afecto". É um Senhor, este António.

"[E quem é o seu Deus?]
É aquele que às vezes me diz ao ouvido que gosta de mim."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

De Mais Ninguém


Janeiro já começou há muitos dias, mas foi hoje que acordei com uma
vontade imensa de começar uma vida nova, noutro lugar, com outras
coisas, outras pessoas, outras vistas. Começar (quase) do zero. Largar
as tais velhas roupas...


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O povo que ainda canta


 
De alguns vídeos avulsos que ia vendo aqui e acolá no FB passou a documentário, actualmente exibido na 2, nas noites de quinta-feira. Julgo que vão ser 26 no total (iéé); 3 já foram. Devo ser uma de várias ou de muitas pessoas que estão vidradas, no melhor sentido da palavra, e verdadeiramente apaixonadas por este trabalho. É comovente e transborda o nosso Portugal, aquele que nós que vivemos nas aldeias e nas vilas bem conhecemos. Não consigo ver quando é emitido, mas tenho conseguido fazê-lo à sexta-feira, pela Internet. Do primeiro confesso que não gostei muito. Apesar de gostar de fado, não apreciei propriamente aquilo centrado em Lisboa. E estava à espera de algo mais profundo. Que veio no episódio 2 e novamente no 3! É tocante, mesmo. Literalmente, agora que penso na palavra que acabei de digitar.
 
Acho que os 3 principais motivos que me fazem adorar esta série de documentários são:
- Fazerem parte, de certo modo, do meu imaginário infantil. Pelo meio das músicas, há muitas quadras, muitas cantilenas, daquelas que eu também ouvia a minha querida avó dizer. E algumas das quais, felizmente, eu também não deixo morrer, dizendo-as no meu dia-a-dia e "pegando-as" até a outras pessoas :)
- Ser um tipo de trabalho que é basicamente o que eu também faço e o que gostava de fazer mais. Documentários, pessoas mais velhas, a vida no campo, etc
- E depois, a sensibilidade. Não quer dizer que se seja melhor ou pior do que outras pessoas, mas tem que existir uma sensibilidade especial para este documentário entranhar no sangue, como é o caso :)
 
O episódio 3 deu para rir, deu para chorar e deu para pensar. E para cimentar o crescimento enquanto Pessoa. E por isso é que esta série é especial! Pode ser visto aqui, vale mesmo a pena.
 
De resto, o pensar veio com a frase que termina o episódio de ontem:
"Metemos as crianças nuns contentores... a seguir metemos os velhotes noutros contentores... e deixámos de nos ouvir uns aos outros."

O chorar aconteceu em alguns momentos, um dos quais me tocou particularmente: A certa altura há um senhor que diz uma cantilena, só hesitando brevemente ali a meio. Mas o senhor é especial. Há-de ter 60 e tal ou 70 e poucos anos. Deve ter trabalhado duro toda a vida. Nomeadamente a cavar terra. E continua a fazê-lo. Em cadeira de rodas...